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Bombachas ao vento

segunda-feira, 2 abril, 2012 @ 12:45 pm

WebberAcaua

Foi feia a coisa. Um forte vendaval provocou estragos em Búzios na noite de sábado, 24 de março. Foram apenas 20 minutos de tempestade, mas várias casas e lojas foram destelhadas e barcos foram dar na praia. De acordo com a Defesa Civil, o vento chegou a 90 km/h, velocidade e força suficientes para arrancar árvores grandes com raiz e tudo. É vento pra chuchu, de levantar cachorro magro nas ruas.

E quem estava por lá no meio desse fuzuê todo era o gaudério boa-praça Webber, na foto acima durante a Regata de Veleiros Clássicos, com o veleiro Acauã bem ancorado – com duas âncoras em linha e 50 metros de cabo n´água – em frente à Orla Bardot, um dos locais mais afetados.

Clica aí para ler o relato de Webber (que editei tentando interferir o mínimo possível para não perder o charme – ele escreveu em apenas um parágrafo, de um fôlego só, logo após o sufoco).


Sempre soube através de relatos de amigos que em Búzios venta quase que diariamente.  Antecipadamente  por recomendação do Maracatu e outros navegadores aconselham-me que o melhor lugar com menor influência dos ventos  e marolas seria a Praia dos Ossos, embora pequena e congestionada. Acatei e aqui estou, pois quem não sabe escuta quem tem experiência. Já no segundo dia tive que sair tastaviendo da cama, pois o GPS acionou o alarme de ancoragem e dito e feito, já estava entre as escunas, já começa a correria no convés que se faz necessário.

Coloquei de pano de fundo no notebook, um programa  que abre o meteograma automaticamente (isto para não esquecer, até criar o hábito de averiguar as condições climáticas nas primeiras horas do dia). Assim estava funcionando, quando no sábado pela manhã (24/03) o meteograma mostrou formação de nuvens pesadas e ventos forte para o final da tarde, o VHF também confirmou a chegada de ventos fortes no final da tarde. Aproximadamente às 12:00 h  levantei ferro da Praia dos Ossos para  jogar novamente no meio da Orla Bardot, já que pouco importava onde ancora-se, pois todos estão vulneráveis a ventos do quadrante Leste. Obviamente  que reforcei a ancoragem, joguei dois ferros em linha, no mesmo cabo, dei 50 metros e fiquei separado a pelo menos 200 metros do último barco, estava mais sozinho que filhote de perdiz, pensei, esta gente depois que este vento passar, irá pegar o meu pé dizendo todas as gracinhas que vocês bem conhecem.

Eu nunca tinha visto uma sequência tão grande de raios e trovões e cada vez mais próximo,  escureceu totalmente, exatamente às 18:45 h escutei o forte barulho da chuva chegando, olhei para fora e não pude acreditar a massa de água vindo. Corri para o leme e liguei o motor quando o vento chegou,  o barco aproado a este vento achatou-se na água, como se uma grande mão tivesse se apoiado sobre o convés, aquilo acelerando cada vez mais. De repente passa por mim, como se fosse uma bala, o capacete de fibra da clarabóia do banheiro, que é fixado com sikaflex e o diabo do vento arrancou – se me pega no rosto o estrago seria grande! O capacete passou toda extensão do barco, bateu no suporte do motor de popa e levantou voo, e nunca o vi encostar na água, como se fosse um papel toalha. O barco neste instante adernou, pasme 45 graus!, e não voltou mais. Totalmente adernado, obviamente virando um caos dentro do barco (caiu tudo de bombordo), eu vi a cruzeta encostar na água e o maldito não subia, isto me atormentava, não podia crer no que via. Aumentei o giro do motor, pois eu já tinha dado avante, mas o que adiantava se o barco estava adernado? E assim fui de lado para a praia, como um tronco seco em córrego, passando entre as escunas totalmente adernado, soltando pedaços de toldos, bandeirolas, coletes, pedaços de madeiras (que não sei de onde surgiram), e neste ínterim, já preferindo abalroar uma escuna (ao menos seria uma parede), mas não parei, passei direto.

Ao chegar à praia a quilha encostou no fundo piorando ainda mais a adernada, ai sim a cruzeta entrou até a metade na água e ficou. O bote estava a contra bordo (do lado de boreste, que adernava), acreditem, ele só não embarcou no cockpit pela lateral por causa do último cabo de aço do púlpito, o Acauã literalmente deitou sobre o bote, o costado do bote arrancou a bóia circular do barco que fica lá em cima, mais da metade da altura da targa. Caos total quando o mar entrou por toda a lateral do cockpit, que não tinha vazão suficiente, fiquei dentro de uma piscina, tão cheia que a água tomou conta da gaiúta de entrada, fazendo uma pequena cascata nas escadas e obviamente preparando aquela grande sopa com os utensílios que estavam todas no paineiro, esperando o barco sair da maldita posição. Mas quando a desgraça se apresenta ela tenta ser completa, digo isto por que além do barulho do vento as duas malditas sirenes dos automáticos  das bombas e porão, ligadas pelos motivos óbvios (senti-me na cabine de comando de um Boeing caindo com o alarme sonoro avisando: tu vai te dar mal!).

Quando o vento diminuiu o barco tentou ficar equilibrado, mas a quilha batia no fundo e com as ondas parecia que a quilha iria empurrar os paineiros. Bem, depois de 20 minutos de terror, parou total, até mesmo a chuva se foi. Aí eu coloquei uma ancora no través, amarrado na ponta de uma adriça e com a catraca eu adernei o barco (minha habilidade nem perto da natureza neste quisto), mas o máximo que pude fazer. Com motor a pleno, leme no meio, eu na proa puxando o cabo de ancora que nem um doido, achava que minhas costas iriam rasgar-se ao meio, consegui desencalhar isto era quase 23:30 h. Voltando a águas mais profundas, foi a hora de olhar os estragos: um monte de eletrônicos boiando, perdi um monte de utensílios para o mar e até a geladeira parou, pois ficou dentro da água. Mas estou tentando colocar tudo em ordem, é a vida de quem esta no mar.

Todos nós já passamos por coisa parecida, isto é apenas um relato (por que não dizer um desabafo), para dividir com o amigo esta peleia, apesar das grandes avarias no barco e a grande perda de materiais, estou flutuando novamente. Arranhado um pouco no costado, mas nada importante. Com ventos de 55 nós, até minhas bombachas eu não sei aonde foram parar! Molhado, moral avariado, mas não se mixemos pros homens, pois não está morto quem peleia meu amigo. Saudações.

3 Comentários leave one →
  1. Hiram Hollanda Jr permalink
    segunda-feira, 2 abril, 2012 @ 3:02 pm 3:02 pm

    Coitado do nosso amigo. Gaúcho sem bombacha não é ninguém. Ainda bem que salvaram-se (quase) todos. Essa história me lembra a novela da Jorge Amado, “Velhos Marinheiros”, quando Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, ferrou seu Ita no cais de Belém com todas as amarras que tinha direito. Bons ventos – também não precisam ser tão bons assim como os de Búzios – aos amigos.

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  2. Percy permalink
    segunda-feira, 2 abril, 2012 @ 3:28 pm 3:28 pm

    É isso aí mano véio, no mar a gente tem que ser que nem vara de marmelo, enverga mas não quebra, eu sei como é esse aperreio, já passei por isso, só que o meu durou 8 horas e eu perdi AKKAR, o bom estar aí para contar as estórias e dar risadas com os amigos depois
    Bons Ventos

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  3. lcblumerdias permalink
    terça-feira, 3 abril, 2012 @ 10:51 am 10:51 am

    Anos atrás, Maria Lúcia e eu estávamos com o pequeno Ananda, um clássico de madeira de 23 pés, ha quase um mes em Arraial do Cabo, com um tempo miserável, chovendo sem parar e com vento com rajadas fortes vindo cada momento de um lado. e tentando ir a Búzios, achando que lá teríamos bom abrigo… mas não passamos de Cabo Frio… e Maria Lúcia me convenceu a voltar para o Rio… ainda bem… nosso pequeno barco com o peso de nossas idades, acho que não aguentaríamos o que o amigo gaucho aguentou… Parabens Weber, vá em frente!

    Luiz Carlos Blumer Dias

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