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Atlântico 2010 – a rede

quarta-feira, 12 janeiro, 2011 @ 12:07 am

No mar aberto. Vento de força 7?

Se você chegou aqui agora, é melhor começar lendo o primeiro post da trilogia. Este é o terceiro e ultimo relato da nossa travessia de Mindelo, em Cabo Verde, para a ilha de Gran Canaria.

O dia 21 de agosto amanheceu ventoso. O nordeste apareceu com força. Com mar de proa o Ferrara não sobe e desce, ele corta as ondas e o vento trás muita água para o convés. Por sorte ficávamos no aconchego da cabine, quentinha e seca, o que é muito importante para o conforto da tripulação. Usamos e abusamos do limpador de pára-brisa, daquele redondo que gira e espira Baixando a vela mestraa água pros lados, igual aos usados nos navios.

À medida que nos aproximamos da ilha de Gran Canária, o vento apertou ainda mais. Já não dava pra ficar com vela nenhuma em cima. Foi o vento mais forte que já tive que enfrentar na orça (muito cedo pra falar, depois peguei um mais forte ainda). Saímos do rumo direto e vamos mais ao Norte a cata de menos vento. Agora temos outro problema: para contornar a ilha pelo Sul vamos dar o costado de bombordo pras ondas. Pelo rádio SSB, de longo alcance, o weather router Rafael não concorda em passarmos pelo canal entre Gran Canária e Tenerife. O Ferrara com mar de lado vira um boneco João Bobo descontrolado e quase temos que usar capacete. A sorte é que chegando mais perto da ilha o vento diminuiu bastante.

Mar grosso um dia antes da chegada

No dia 22 estávamos a sete milhas de Gran Canária, em um dia lindo com vários barcos a nossa volta aproveitando o domingo de sol. De repente Mara vê uns peixes despedaçados boiando em nossa esteira e o motor de bombordo para sem nem dar um soluço. Puta-que-pariu, gritamos em uníssono (mi capitán Jordi bradou “la mara que vá parir”, que é o correspondente em catalão). Enroscamos numa rede de pesca!

Baixamos as velas, desligamos o outro motor e lá vai Jordi pra água novamente. Ficamos a deriva de novo e mais uma vez não foi possível fazer muita coisa. A rede fez um burundum enorme em volta do hélice e não dava pra cortar o cabo tão grosso em apnéia, só no fôlego. Mi capitán prometeu a si mesmo comprar um compressor de ar para safar este tipo de problema. Rumamos então para a marina de Passito Blanco, onde se pode alugar uma garrafa de mergulho. Eu já vi este filme antes: quando cruzamos com a escuna Valtur Bahia, em 2000, também paramos na marina e gastamos duas garrafas para reparar, com muita massa Tubolit, um vazamento de mais de metro entre duas taboas do casco.

Enseada de Passito Blanco, ao sul de Gan Canária

Depois de 888 milhas navegadas em seis dias, 6 horas e 40 minutos, terminamos o pior trecho da travessia até então. Devagarzinho, só com um motor, ancoramos na enseada do lado de fora da marina. Nem desembarcamos, fizemos um happy hour ao pôr-do-sol e dormimos como anjinhos.

Ancorado em Passito Blanco

Clique aqui para os outros relatos de nossa travessia do Atlântico.

9 Comentários leave one →
  1. JOANA VIEIRA VIANA permalink
    quarta-feira, 12 janeiro, 2011 @ 7:51 am 7:51 am

    QUE SUFOCO! AINDA BEM QUE DAQUI, AGENTE SÓ VIA UM BALÃOZINHO NO MEIO DO OCEANO E ACHAVA QUE ESTAVA TUDO BEM… VALERAM AS REZAS DE D. PENHA!!!! BJ.JU

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    • segunda-feira, 9 janeiro, 2012 @ 2:17 pm 2:17 pm

      Juju,
      Só agora “achei” estes comentários. Foi um sufoco, mas velejador tem memória curta. Depois de um bom banho e uma noite de sono, se tiver happy hour melhor ainda, a gente esquece tudo e fica pronto pra outra.
      O Spot é muito legal, pelo menos você podia ver que estávamos rumando para o objetivo.
      As rezas de Broncopenha sempre ajudam.
      Beiju querida filha,

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  2. Neusa permalink
    sábado, 15 janeiro, 2011 @ 8:15 am 8:15 am

    Vendo o comentário de Joana eu me lembrei de dois amigos de Floripa, Paulo Schaeffer e Adauto, que fizeram a travessia até Capetown em um Fast 310. O motor pifou, perderam o leme e, ao contrário do Ferrara, pegaram uma calmaria quase eterna. Eles disseram que a falta de vento toda foi resultado das rezas da família. Excesso de rezas… hahaha

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    • segunda-feira, 9 janeiro, 2012 @ 2:21 pm 2:21 pm

      Neusa,
      Depois me aprensete ao Paulo, gostaria de saber detalhes da travessia.
      Não há nada mais enervante do que uma calmaria podre. Eu sempre peço a Dona Penha pra não rezar demais. No caso do Ferrara, calmaria era até bem-vinda já que o vento nessa área é sempre na cara.
      Um cheiro e bons ventos sempre,

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  3. KALYNKA DOS SANTOS permalink
    quinta-feira, 24 fevereiro, 2011 @ 5:42 pm 5:42 pm

    Quanto sufoco heinnn! Parabéns pelo diário, fico feliz em relembrar alguns momentos com vcs.
    Grande abraço.
    Kalynka

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  4. KALYNKA DOS SANTOS permalink
    quinta-feira, 24 fevereiro, 2011 @ 6:01 pm 6:01 pm

    Adorei.Foi como viajar no tempo. Descobri por acaso. Tenho saudade da nossa viajem…quando ví as nossas fotos quase chorei de alegria sei lá, emoção, felicidade, surpresa etc. Tenho muitas fotos nossas tbm.
    Saudade!

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  5. segunda-feira, 9 janeiro, 2012 @ 2:25 pm 2:25 pm

    Kalynka,
    Quanto tempo! Bem-vinda a bordo.
    Nossa viagem na escuna Valtur Bahia foi memorável, afinal foi minha primeira travessia do Atlântico e a primeira vez a gente nunca esquece.
    Por ande anda mulher? Em Vitória? Espero te encontrar para revermos juntos as fotos.
    Beijos e bons ventos sempre,

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    • sábado, 25 fevereiro, 2012 @ 12:30 pm 12:30 pm

      Ei, Hélio! Estou em Vitória sim…será um grande prazer revê los. Realmente essa nossa experiência foi ímpar, afinal, atravessar o oceano atlântico abordo de uma escuna baiana não dá para esquecer.
      Quando vieres por essas bandas, me mande um e-mail, ok? kalynka14123@hotmail.com

      Beijos

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      • terça-feira, 28 fevereiro, 2012 @ 6:57 pm 6:57 pm

        Kalynka,
        Email devidamente anotado. Na minha próxima ida a Ventória te procuro, pode deixar. Aí mataremos a saudade e botaremos os papos em dia.
        Um cheiro grande,

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