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Fraternidade – de Bali a Sri Lanka

quinta-feira, 11 novembro, 2010 @ 12:07 am

Aleixo com o povo de Bali

Recebi e-mail de Aleixo Belov, e logo em dose dupla! O lobo do mar me avisou que vai passar o inverno do Hemisfério Norte entre a Índia e o Egito, “vou ter que ir matando o tempo, não tenho escolha”. Dando sequencia à saga de volta ao mundo do veleiro-escola Fraternidade, ontem publiquei da Nova Caledônia a Indonésia, aqui vai seu novo relato.

A chegada a Bali foi quase tranqüila. A correnteza era muito forte, mas como eu já sabia disto, fui sempre dando o desconto no trabalho da correnteza enquanto pegava o canal. Mais uma vez a marina estava cheia, era por causa de um rally, mas eles iriam sair no dia seguinte. Arrumaram uma bóia emprestada onde atraquei o Fraternidade lá fora, mas já usando o chuveiro e o restaurante da marina onde comemoramos a chegada. Só não podia sair pelo portão, pois não tinha feito os papeis. No dia seguinte atraquei o barco na marina flutuante, fiz os papeis e estava em casa. Era triste ver que, na marina, em 10 anos nada tinha mudado. Estavam ali os mesmos flutuantes, só mais velhos e desgastados, mas o povo não mudou, continuava de uma amabilidade rara e era o que fazia a diferença.

Taís Benfica

Taís Benfica, uma baiana que estava há três anos na Austrália e que vinha me pedindo uma vaga, recebeu o de acordo quando eu estava em Weipa. Pedi apenas que adiantasse o visto da Índia que iríamos precisar. Ao chegar em Bali, ela já estava lá. Veio sem o visto, não agüentou esperar. Disse que tiraria junto com os demais tripulantes, e fiz o seu embarque. Assim, com a saída de Hélio Almeida ficaram Taís, Rafael Coelho e Osvaldino Dorea.

Como estava em Bali pela quarta vez, resolvi apresentar-lhes o lugar. Fomos a Kuta, a Dempassar, as praias, ao mercado de frutas, as feiras de esculturas e artesanatos e demos uma volta geral pela ilha com Iasa, meu amigo escultor há 30 anos. Vimos as plantações de arroz com seus terraços, as brigas de galo com suas apostas, a cidade de Ubud com seus templos e um milhão de lojas. A ilha, alias se resume a oficinas de artesanato e pintura, hotéis, pousadas, aluguel de quartos e um infinito número de lojas. A ilha parece que é uma feira só. Se elas estão abertas é por que dão resultado, pensei. Daqui saem milhões de containers carregados de artesanato, pinturas, esculturas, roupas, sacolas e tudo que depende de uma habilidade manual rara e da criatividade inata do povo desta ilha. Não é a toa que enquanto na marina, a cada 10 minutos via passar um avião que acabara de decolar. Era gente que chegava e saia sem parar. Nunca vi nada igual.

Tinham se passado 10 anos, mesmo assim encontrei alguns amigos. Vi passar na minha frente Made Gerip, do Bali Yacht service, que logo me reconheceu. Acertei com ele ir à casa de Iasa, o escultor que entalhou o Três Marias junto com seus amigos. Ele tinha se mudado para uma casa nova e muito linda. Assim, apenas três dias depois de chegar, já tinha 4, ás vezes 5, artesãos entalhando o Fraternidade. Tinha ao construí-lo, instalado madeiras de boa espessura já com esta finalidade. Um outro grupo, estava na casa de Iasa, esculpindo mais um xadrez de peças grandes, em que cada peça era uma obra de arte. Já tinha três destes em casa, um por volta ao mundo. Um deles já era de Alexey. Ele o ganhou ao me vencer em uma partida.

Entalhe do Fraternidade em Bali

Encontrei também uma moça no bar da marina, que logo reconheci. Ela me lembrou de algo que já tinha esquecido. “O senhor foi quem me deu dinheiro para reparar meus dentes”. Realmente, vendo-a linda, jovem com dois dentes estragados logo na frente, perguntei porque ela não os concertava. Disse-me quanto ganhava, os salários aqui são realmente muito baixos e já tinha 2 filhos. Eu tinha comemorado o aniversario de Marúcia e Alexey com um churrasco para 30 convidados, praticamente a marina toda. Não era justo. Perguntei quanto seria, e passei-lhe o dinheiro. Hoje, vendo-a sorrir com os dentes perfeitos, descobri que foi o dinheiro dos mais bem aplicados da minha vida.

Banho no rio

Bali continuava interessante. Nem a bomba que os terroristas detonaram no Sari Club, onde todos nós dançamos 10 anos atrás abalou o fluxo de turistas. Pelo contrario, eles estão vindo cada vez mais. No local da explosão temos hoje um monumento com o nome de todos os que morreram. Enquanto do lado, surgiram mais de 10 boates, cada uma mais moderna, onde a turma se encharca de bebida, dança, e as mulheres desempregadas e sem esperança fazem ponto. A globalização padronizou muita coisa e tirou a originalidade do mundo, mas o que fazer, é para lá que nos vamos.

Nunca passei menos de 20 dias em Bali, mas desta vez adiantei as coisas e com 15 dias já estava de volta ao mar. Estava indo para Sri Lanka, indo cada vez mais fundo para o Oriente. Depois seria a Índia, Oman, Yemen em frente a Somália com seus piratas que tanto me preocupam e finalmente o Mar vermelho, Eritréia, Sudão, Egito, Grécia, Turquia, Istambul e Odessa na Ucrânia, onde nasci. Isto só vai dar certo se os piratas me deixarem passar. Só uma coisa não saia de minha cabeça, como tem chão pela frente antes de poder retornar ao Brasil.

Retornar a Ucrânia tornou-se para mim uma idéia fixa, depois que resolvi fechar a mandala da minha vida. Seria exatamente o quarto e último lado da mandala que estava faltando. Nasci na Ucrânia debaixo de guerra, já com a ocupação alemã em janeiro de 1943. Meu pai foi saindo, procurando um lugar mais tranqüilo para poder criar os filhos e encontrou o Brasil. Não creio que ele tenha consultado um Oráculo, mas este foi o primeiro lado da mandala.

Cresci em Salvador, aprendi a mergulhar, a velejar, estudei filosofia, tornei-me engenheiro, depois empresário e perdi aquele medo do mundo, que me acompanhava desde o meu nascimento debaixo de bombas que estouravam. Este foi o segundo lado da mandala.

Trabalhei como engenheiro, como mergulhador, como empresário, casei duas vezes e tive cinco filhos, dei 3 voltas ao mundo num veleiro e escrevi 5 livros, construí um veleiro escola para velejar pelo mundo com jovens brasileiros, para passar à nova geração o que tinha aprendido com o mar. Este foi o terceiro lado da mandala.

Só falta o quarto e último lado para fechar a mandala, que seria voltar ao lugar em que nasci, e unir os dois povos na festa dos 120 anos da imigração ucraniana para o Brasil, em junho de 2011, da qual vou fazer parte se os piratas da Somália deixarem, organizada pelo Ministério da Cultura do Brasil e pelo Ministério do Exterior em Odessa. Como não consultei o Oráculo, não sei o que o destino esta reservando para esta minha volta às origens. Vou ter que esperar para ver. Torçam por mim.

Tinha feito esta viagem com Lygia 25 anos atrás, só que não era para Galle e sim para Colombo que é a capital. Hoje não aceitam veleiros em Colombo, e com bastantes restrições em Galle, que é também um porto militar. Em vez de 42 dias fiz desta vez em 23, era outro barco, e peguei ventos melhores, era outra estação. Ao chegar, falei pelo radio e mandaram-me esperar. Veio uma lancha com três metralhadoras na proa e 3 na popa e 2 oficiais que inspecionaram todo o barco, e só então tive autorização para atracar e receber a aduana, a quarentena e ir em seguida a imigração, depois de contratar um agente. Fiz os papeis, mas teria que ir a capital para prolongar o visto de 3 dias que dão no porto. A burocracia era um pouco chata, mas o agente Chatura, ajudava a resolver tudo, uma pessoa excelente. Depois de 30 anos de guerra e apenas um de paz, não podia ser diferente. Sri Lanka está separada da Índia por umas poucas milhas, menos de 10, e o povo é quase igual. Sentia que estava penetrando cada vez mais fundo no Oriente. Via seu povo, sua comida, sua cultura e seus costumes e castas. Parecia que ter apenas dois olhos para ver tudo isto era pouco. Neste instante gostaria de ter pelo menos uma meia dúzia de olhos para ver, uma meia dúzia de braços para abraçar o seu povo.

Clique aqui para a série de posts sobre Aleixo e o veleiro-escola Fraternidade.

2 Comentários leave one →
  1. Mauricio A. Martins permalink
    quinta-feira, 11 novembro, 2010 @ 1:07 pm 1:07 pm

    Parabens pelo excelente texto “Fraternidade – de Bali a Sri Lanka”, simples, completo… ótimo. Mauricio Martins

    Curtir

  2. quinta-feira, 11 novembro, 2010 @ 4:24 pm 4:24 pm

    Olá,

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