O nome não é Johnny, mas poderia ser…

O casamento foi de arromba no Outeiro da Glória. Ele de fraque, ela uma das mais bonitas noivas do Rio de Janeiro. Seis meses depois a casa caiu, o economista Ronald Soares Jr. descobriu que estava sendo traindo pela mulher e pelo melhor amigo. Ronald, um paulista criado no Rio, largou a infiel e uma milionária carreira no emergente mercado financeiro dos anos 70, comprou um veleiro na Inglaterra, o Cedrene, de 15 metros, fez uma tatuagem no braço e saiu com três amigos pra girar o mundo, a realização de um sonho adolescente. Era tudo muito relax, a bordo ninguém usava roupas e na bandeira do Brasil hasteada na popa do Cedrene, no lugar do sisudo “Ordem e progresso” estava escrito “Paz e amor”.
A volta, já casado e com uma filha pequena, foi na Regata Cape Town-Rio. O ex-yuppie e agora hippie dos mares ainda voltou ao Caribe com um novo barco e outra mulher que lhe deu um filho. O casal ganhava a vida vendendo biquínis e baseados na ilha de St. Barth. Quando a grana acabou Ronald voltou ao Brasil, caiu em depressão e se viciou em cocaína e heroína. Depois de curar a dependência na África do Sul, nosso marujo foi ser uma espécie de “representante comercial” de um grupo associado ao Cartel de Cali, na conexão Colômbia-Caribe-Inglaterra, que movimentou, de 1996 a 1999, uma tonelada de cocaína e 20 milhões de libras por ano. Essa montanha de pó saía da Colômbia de avião, era jogada no mar do Caribe, embalados em pacotes de cigarro de 2 metros quadrados, que eram recolhidos por iates e veleiros de lazer – os 20 anos de mar lhe ajudaram nessa logística.
Como o crime não compensa, a canoa furou e na manhã de 12 de fevereiro de 1999, uma sexta-feira de carnaval, nosso protagonista foi preso num hotel quatro estrelas em Londres e condenado a 24 anos de reclusão numa penitenciária de segurança máxima, por traficar duas toneladas de cocaína para a Inglaterra. Ronald cumpriu 12 anos antes de ser transferido para a penitenciaria de Bangu no Rio de Janeiro, recuperando a liberdade no ano passado. Opa, eu já vi este filme: Meu nome não é Johnny, baseado na história de João Guilherme Estrella, estrelado por Selton Mello. Mas que nada, estou falando do livro “Tudo ou nada”, escrito pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares, o autor de “Elite da Tropa”, que conta a vida pregressa do economista que virou traficante internacional (à direita na foto acima, ao lado do autor).
Era tudo aparentemente fácil. Um veleiro com alguns casais a bordo, que parte cedinho e retorna ao fim do dia para uma marina inglesa, está longe de levantar suspeitas. E nas marinas o vai e vem de marujos carregando tralhas, de e para os barcos, não é uma cena incomum. Mas às vezes o velejador passava perrengue, como quando ele cruzou com uma esquadra formada pelas marinhas de todas as Américas, em pleno exercício bélico. Quem conta é o autor:
O drestroyer escolhido para abordar o veleiro saiu de seu posto na procissão náutica e apontou na direção do veleiro, que seguia para o Caribe repleto de drogas. Aproximou-se, celeremente. Nosso protagonista entrou em pânico. Sua hora tinha chegado. Trocando palavras, em inglês, pelo rádio, o comandante do navio e Ronald se descobriram, pelo sotaque, compatriotas e celebraram aquela coincidência com a efusividade brasileira mais derramada e afetuosa. Em um minuto, eram amigos de infância. Foi uma intimidade instantânea. O comandante falou da saudade da terrinha, desejou boa sorte ao velejador, mandou um abraço apertado, manobrou e retomou sua posição na esquadra. Dever cumprido. Um brasileiro afável a bordo de um veleiro frágil e frugal não poderia ser mau elemento.
O thriller Tudo ou nada já se encontra nas melhores casas do ramo e está em promoção na Saraiva Online, de R$ 34,90 por apenas R$ 19,90. Clica aí para ver o book trailer feito por Gustavo Hadba e o produtor de cinema Flávio Tambellini.
Book trailer de “Tudo ou nada”




