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Fraternidade – De Galápagos as Marquisas

domingo, 13 junho, 2010 @ 1:07 am

As Marquisas na Polinésia

Depois de muito tempo sem noticias do navegador Aleixo Belov, o ucraniano mais baiano que conheço, eis que pipoca um monte de e-mails enviados por sua filha Mariana com relatos e fotos da viagem do velho lobo do mar e tripulação no veleiro-escola Fraternidade. Aqui vai a primeira parte, amanhã tem mais.

Saímos de Galápagos com a primeira luz do dia e fomos navegando por entre as ilhas, nos afastando para que quando escurecesse de novo o Fraternidade já estivesse em águas livres. O vento continuava fraquinho, mas como nas outras vezes, ele foi melhorando à medida que nos afastávamos e terminamos fazendo caminho.

Tripulantes do Fraternidade nas Marquesas A turma estava ansiosa, pois, pela primeira vez na vida estavam se preparando para atravessar a parte deserta do Oceano Pacífico com 3 100 milhas de extensão. Recomendei cuidado no consumo da água, principalmente no banho, mas era muito difícil. Estavam todos acostumados a gastar, e por mais que eu os doutrinasse, contando que no Concorde, em 33 dias de Salvador a Cape Town só tomei dois banhos, e o comandante francês um (fazia frio), a maioria deles continuava gastando, tendo cuidado com os cabelos crespos, regando-os como se fossem plantas. Eles não tinham assumido, com raras exceções, o espírito do marinheiro de alto mar. Eles gostavam de navegar, mas, fazer sacrifícios do conforto em prol da segurança, não tinha se incorporado a sua consciência. Explicava que podíamos quebrar o mastro e ficar boiando meses até sermos resgatados. Mas, neste instante criava-se uma espécie de sindicato. Eu explicava, eles ouviam, mas muitos deles já tinham suas idéias formadas, e iam criando um clube entre eles. Vieram mais pelo turismo, pela aventura, ou para ter o que contar enquanto tomassem cerveja com os amigos, depois que voltassem para casa. Poucos leram sobre os grandes navegadores do passado, ou os consideravam seus heróis. Viciados também em computador, iam secando as baterias do barco, obrigando-me a ligar o gerador constantemente. Se eu reclamasse, mudavam de humor. Queria ensinar-lhes como fiz minhas viagens solitárias, com muitas restrições, e que deram certo. Que na primeira volta ao mundo, fui sem radio, sem balsa salva-vidas, apenas com um sextante velho que recuperei de um navio naufragado. Que quase nem ligava a luz de navegação para não gastar bateria. Mas os tempos tinham mudado. E se assim fiz, foi por opção própria. Eles estavam em outra.

Compreendia, que a escolha de cada aluno convidado, por mais cuidadosa que fosse, era uma tarefa muito difícil. Talvez nem existissem as pessoas que eu procurava. Pois quem no Brasil, estava tentando fazer a quarta volta ao mundo. Parece que só mesmo eu, e nem sei explicar por quê.

Os dias foram passando e o barco avançava, mas ia devagar. Desta vez, era uma época diferente, e não tinha encontrado os mesmos ventos de outrora. Com ventos bem mais brandos e bastante gente a bordo, passamos a içar a genaker e o balão com bastante frequência, e terminamos chegando com 22 dias nas Marquisas, exatamente em Nukuhiva, depois de boiar uma noite inteira nas imediações do porto de Taiohae, para só entrar de manhã, com a luz do dia. Tínhamos chegado na Polinésia Francesa. Para muitos, a realização de um sonho, para mim, a conclusão da primeira etapa, dando como pronta a primeira turma. Mas, nem todos queriam voltar para casa. A maioria, com um bom atestado do veleiro-escola Fraternidade na mão, procuraram embarcar em outros veleiros, e quase todos conseguiram. Só mesmo Marcelo Caetano voltou para casa.

Em Taiohae, fiz muitas amizades e conseguimos dar muitos passeios. Teve gente que tirou uma semana de férias só para nos levar para passear. A turma se maravilhava com o povo muito comunicativo e amigo destas ilhas. Conseguimos participar até da caça ao porco selvagem, indo em duas camionetes com amigos, quatro caçadores, eu, Alexey, Osvaldino e Paulo filmando além dos seis cães. Os cães farejavam os rastos dos porcos e saiam em louca disparada e os caçadores iam atrás. A caçada foi um sucesso e no dia seguinte foi o churrasco com todos os alunos do barco convidados, mas ficou estampada na memória que a caçada não deixa de ter um que de crueldade. É mais fácil comer na churrascaria sem ver o boi morrer. Alexey aproveitou também para fazer mais uma tatuagem, que ficou grande e bonita. Depois de oito dias fomos para Atuona, na ilha de Hiva Oa, onde Lara também fez a sua tatuagem. Só eu venho resistindo.

Em Atuona começou a chegar a nova turma. Chegou Rafael Coelho, um engenheiro naval do Rio de janeiro, e dentro de três dias chegará Hélio Almeida, de Brasília, trazendo inclusive peças de reposição para o motor. A intenção é não encher o barco como antes. Muita gente a bordo da muito problema. Vamos ficar com sete por enquanto. Inventei o veleiro-escola, mas, fui muito mais feliz em solitário.

Daqui queremos ir para Fatuhiva, depois provavelmente para Rangiroa, um atol dos Tuamotus, e finalmente Tahiti. Mas nada posso dizer com certeza. O futuro não nos pertence.

Clique aqui para os outros posts sobre Aleixo e o veleiro-escola Fraternidade.

Sobre estes anúncios
10 Comentários leave one →
  1. domingo, 13 junho, 2010 @ 3:15 am 3:15 am

    Parece que o nosso querido Aleixo Belov não está muito satisfeito com o seu projeto!
    Vamos torcer para que a próxima turma seja formada por pessoas que o mestre procura!

    Grande abraço

    Guto
    Veleiro Tupinambá

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  2. domingo, 13 junho, 2010 @ 8:08 pm 8:08 pm

    É muito complicado acostumar-se à “multidão”, após anos velejando solitário.
    É algo para pensar e aprender com a experiência do Belov.

    Reinaldo

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  3. Misterioso permalink
    domingo, 13 junho, 2010 @ 10:53 pm 10:53 pm

    Entendo perfeitamente as palavras de Aleixo! No entanto, se as coisas chegaram a esse nível, ele tb tem sua parcela.
    Mas claro, vamos torcer!
    Abçs

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  4. diariodoavoante permalink
    segunda-feira, 14 junho, 2010 @ 4:24 pm 4:24 pm

    Grande Aleixo, como é dificil encontrar gente do mar!
    Nelson

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  5. André permalink
    terça-feira, 15 junho, 2010 @ 2:00 pm 2:00 pm

    Por isso que barco grande é bucha. Sempre tem que levar uns peludos juntos.

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  6. Anna Ring permalink
    quarta-feira, 16 junho, 2010 @ 12:00 pm 12:00 pm

    Fraternidade é algo sagrado. Nos dias atuais todos preferimos a individualidade. Muito mais fácil transferir a responsabilidade aos outros. As familias se comunicam por e-mails e celulares e nunca estiveram tão distantes. Filhos educados e criados pelo mesmo pai e mesma mãe são todos completamente diferentes. Pelos relatos até aqui entendo que não houve diálogo. “Jasão e os Argonautas” tinham um objetivo comum. Faltou o objetivo comum. Certo é que TODOS aprenderam MUITO e devem ser gratos pela oportunidade que uns ofereceram aos outros em IGUALDADE.
    NUNCA seremos mais sábios do que QUALQUER um outro.

    Sucesso na 4.a volta ao Mundo.

    Bons ventos a todos os Velejadores de suas próprias vidas.

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    • Mauricio A. Martins permalink
      quarta-feira, 16 junho, 2010 @ 1:48 pm 1:48 pm

      Hélio, gostei muito do comentário da Anna Ring , estou absolutamente de acordo e principalmente por seus votos de “bons ventos aos velejadores em e de suas próprias vidas” – paz amor e luz minha cara. Mauricio Martins

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  7. Márcio Rezende permalink
    domingo, 22 julho, 2012 @ 7:57 pm 7:57 pm

    Estou lendo alguns livros sobre navegação em veleiros (Abaixo da convergência, Endurance, Amir Klink, Joshua Slocum) e a reedição do primeiro livro do Aleixo. Logo que me aposentar vou procura-lo para ver se tem uma vaga neste veleiro. Tenho um velamar 26 mas fico só na Bahia da Ilha Grande. Tenho muita vontade de soltar as minhas amarras.

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