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Como plantar um barco

segunda-feira, 10 agosto, 2009 @ 12:01 am

Furacao-Luis-001

Conheci Ricardo na Praia do Jacaré, em Cabedelo, quando voltava de um passeio de carro até Jericoacoara, no Ceará, e ele acabava de cruzar o Atlântico em seu veleiro, o Anthinea II, vindo da Europa com uma escala nas Canárias.

Argentino que morou na França antes de se lançar ao mar como velejador solitário, Ricardo chegou exasperado com o tripulante que tinha escolhido para lhe ajudar na longa travessia, mas depois de umas geladas (ele não gostou da boa cachaça paraibana) me contou como seu barco sobreviveu ao furacão Luis, um monstro que arrasou, com seus ventos de até 140 nós (259 km/h), parte das Pequenas Antilhas em 1995: simples, ele plantou o barco num estaleiro em Antígua, a ilha que mais sofreu, depois de St. Martin, com a força destrutiva do furacão de Categoria 4 (não confundir com de 4ª categoria)!

Aqui tem a receita de como plantar um barco (traduzida com colaboração de Her Othmar, do trawler Wasselbett):

Naveguei durante 10 anos pelo Caribe, por períodos de 4 a 5 meses, e a cada partida era necessário deixar o barco em condições seguras. Sempre pensei que deixar em seco era a melhor solução, portanto na primeira vez, estando na ilha de Antigua, decidi deixá-lo ali. As condições pareciam boas, com duas possibilidades: com cavaletes de madeira ou enterrar o barco até quase a linha de flutuação. Escolhi a segunda opção, pois me parecia a melhor e dava certa segurança e tranquilidade. Pude selecionar o lugar numa linha de barcos enterrados, com buracos já preparados. Como não sabia como poderia atuar um ciclone, aprofundei mais o poço por via das dúvidas e deixei o convés limpo, tirei até a retranca, deixando apenas o mastro. Com a quilha dentro do buraco, é só encher com areia, socar tudo e escorar o casco com postes de madeira.

Alguns meses depois, em setembro, o furacão Louis descarregou toda a sua força na ilha de St. Martin e Antigua. Como eu não tinha seguro e com as comunicações cortadas com a ilha, decidi viajar para lá para ver o que aconteceu. A viagem durou quatro dias durante a época de ciclones, pequenos e grandes, a ponto de impossibilitar a navegação aérea. Durante uma calmaria consigo chegar à ilha e a vista do avião era de destruição total com casas, árvores e todos os postes elétricos derrubados. Aumentou a minha angustia ao ver que as oficinas do estaleiro não existiam mais e os barcos que haviam ficado fora dos poços, espalhados como um castelo de cartas. Havia também barcos a 300 metros da água.

O alivio veio ao ver que todos os barcos enterrados estavam em boas condições, apenas um teve o mastro quebrado, o que me fez pensar que muitos objetos voaram durante a tormenta. Portanto não existe 100% de segurança nestes lugares e nos anos seguintes deixei o barco na Venezuela ou na ilha Trinidad no sul do Caribe, onde as possibilidades de furacões são muito menores.

Furacao-Luis-003 Furacao-Luis-007

Hoje, enquanto Ricardo está na França, o Anthinea está guardado na Marina Bracuhy, boiando perto do MaraCatu. Vez por outra dou uma olhada e confirmo que a linha d’água continua no mesmo lugar. Fique tranqüilo Ricardo, aqui não tem furacão e obrigado pelo relato.

2 Comentários leave one →
  1. segunda-feira, 10 agosto, 2009 @ 6:07 am 6:07 am

    Muito bom este tema, já tinha pensado que se um dia me visse na eminencia de apanhar com um furacão, o que faria. Na minha humilde inexperiencia já tinha pensado que por sistema os ventos fortes lançam os barcos no chão, então é melhor colocar o veleiro logo nessa posição, ou seja tombá-lo sobre a quilha e sobre um dos bordos e limpar completamente o convés. Nunca tinha pensado em enterrar a quilha, mas é uma boa solução e numa parada de alguns meses seria conveniente baixar o mastro.

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    • quarta-feira, 12 agosto, 2009 @ 2:02 am 2:02 am

      Conde,
      Concordo, em vez de tombar o barco, é melhor plantlá-lo. Quem sabe se não nasce um pé de fibra, já que a maior parte dos barcos hoje são de fibra de vidro ;)
      Bons ventos sempre,

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