O primeiro Vendaval
Antes de largar tudo e ir morar no MaraCatu resolvemos fazer uma viagem de teste. Sempre tínhamos tripulantes, mas nas férias de verão de 1998 fizemos um cruzeiro a dois até Porto Belo – SC. Fomos em flotilha com o Yahgan, um Cabo Horn 35 do João, e com o Taai-Fung II de Ivan e Egle, um Samoa 29 irmão gêmeo do MaraCatu.
Zarpamos da Marina Bracuhy e dormimos em Ilhabela por falta de vento. Antes de sair, a previsão que o Iate Clube nos deu era vento fraco e mar calmo. O Yahgan nos passou à toda de balão. Perto de Santos já ventava uns 18 nós de Sueste. Egle chamou pelo rádio VHF e insistiu para passarmos a noite por lá. Parar praque, se o vento é a favor?
Depois o vento aumentou para um Força 7. As ondas pareciam ter mais de quatro metros, eu já citei aqui como é difícil estimar a altura das ondas. O gerador eólico chegava a parar quando estávamos no seio das ondas e uivava feito um avião quando pegávamos a rajada na crista da próxima. Ficamos 48 horas sem dormir, a comida se resumiu a bananas e chocolate. Pra beber, Coca-Cola e guaraná em pó para tirar o cansaço. Medo? Muito. Não sei mais rezar, mas tentei. Egle falou depois que pediu até a Tim Maia, que tinha recém falecido, para olhar por todos.
Para piorar o que já estava ruim, o piloto automático pifou e tive que ficar no leme por umas 8 horas seguidas. Corríamos com o tempo com a grande no 3º rizo. A parte mais crítica foi quando tive que ir à proa, pois o bote se soltou. Passei o leme para Mara, não esperei ela se acostumar com o balanço do barco e não deu outra: um jaibe involuntário. Se minha cabeça estivesse uns dez centímetros para o lado a retranca teria me apagado. Depois sofremos outro jaibe involuntário, e mais outro!
Começou a chover. Ótimo, a chuva vai baixar o mar. Sem luvas, as pontas dos dedos, já enrugadas, começaram a incomodar. Várias vezes fiz xixi sem tirar a roupa impermeável, claro que tendo o cuidado de antes tirar a bota do pé esquerdo.
Sabemos que num vendaval não se deve aterrar, mas João ouviu pelo rádio SSB que o vento diminuiu em São Francisco do Sul e mudamos o rumo para lá. Felizmente Mara conseguiu limpar os contatos e o piloto voltou a funcionar, o vento amainou e até abriu um buraco nas nuvens com uma nesga de sol de fim de tarde. Quando diminuiu o estresse a reação do organismo foi botar pra fora toda a adrenalina acumulada. Não estava enjoado, mas vomitei quase um litro de Coca Diet.
Chegamos na barra do São Francisco à noite, exaustos, num porto desconhecido e com uma carta desatualizada. Quase abortamos a entrada, mas depois da tempestade vem a ambulância. A nossa foi o João, que já tinha entrado e nos orientou pelo VHF. Jogamos a âncora com o sol nascendo e desmaiei no beliche.
O erro básico foi não saber pedir a previsão do tempo. Nos informaram a de Ilhabela quando na área Bravo, para onde estávamos indo, já havia aviso de vento forte e mar grosso. Ficamos embaixo de numa alta pressão (1036 MB) que gerou, talvez, um mini ciclone extratropical.
Queríamos um teste? E que teste! Sofremos, mas não desistimos. Afinal como dizem os velhos marinheiros ingleses “Calm seas never make skillful sailors!”.





Amigo Helio,
Seu relato esta perfeito. Nunca senti tanto medo em minha vida. So tenho uma ressalva: Quem apelou para Tim Maia foi o Ze. Eu apelei para um cardume de golfinhos que passou pela nossa proa . Na hora do aperto vale pedir ajuda para qualquer um.
Beijo grande
Egle
Egle,
Minha querida leitora atenta. A falha foi da Web Slave Mara, a revisora deste blog. Acho que não vou corrigir no texto, assim só fica sabendo da verdade quem vier futucar nos comentários.
O interessante de nossa experiência é que não pegamos, ainda, algo maior que o primeiro vendaval. Nos ventos mais fortes que enfrentamos, lembro daquilo e penso: ainda está bom, já passei por coisa pior.
Beiju.
Eu vim Futucar(!). Eu nunca passei por uma tempestade, mas sei que um veleiro bem preparado aguenta muito mais do que aquilo que o marinheiro inexperiente pensa. Eu tenho um livro que relata uma regata em Inglaterra que correu muito mal….meia duzia de mortos e muitos barcos afundados, mas o autor do relato conta coisas incriveis de resistencia que eu pensava não serem possiveis, a uma certa altura ele diz que
barco aberto entrava a água que queriia entrar, sem ninguem ao leme e sem mastro o barco aguentava e as ondas eram agora um pouco mais pequenas pois só tinham 8 metros. De referir que a embarcação éra de fibra e tinha (tem) 9 metros, ficou á deriva sem ninguem a bordo e cheio de água e foi resgatada uns dias depois intacta. E esta hem!.
Conde,
Futucando? Ora, já estais falando brasileiro…
A regata a que você se refere é a Fastnet, que larga no próximo domingo, 9 de agosto, em sua 43ª edição.
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