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O primeiro Vendaval

segunda-feira, 28 abril, 2008 @ 11:59 am

Antes de largar tudo e ir morar no MaraCatu resolvemos fazer uma viagem de teste. Sempre tínhamos tripulantes, mas nas férias de verão de 1998 fizemos um cruzeiro a dois até Porto Belo – SC. Fomos em flotilha com o Yahgan, um Cabo Horn 35 do João, e com o Taai-Fung II de Ivan e Egle, um Samoa 29 irmão gêmeo do MaraCatu.

Mara enquanto estava tudo calmo - Foto © Hélio Viana Zarpamos da Marina Bracuhy e dormimos em Ilhabela por falta de vento. Antes de sair, a previsão que o  Iate Clube nos deu era vento fraco e mar calmo. O Yahgan nos passou à toda de balão. Perto de Santos já ventava uns 18 nós de Sueste. Egle chamou pelo rádio VHF e insistiu para passarmos a noite por lá. Parar praque, se o vento é a favor?

Depois o vento aumentou para um Força 7. As ondas pareciam ter mais de quatro metros, eu já citei aqui como é difícil estimar a altura das ondas. O gerador eólico chegava a parar quando estávamos no seio das ondas e uivava feito um avião quando pegávamos a rajada na crista da próxima. Ficamos 48 horas sem dormir, a comida se resumiu a bananas e chocolate. Pra beber, Coca-Cola e guaraná em pó para tirar o cansaço. Medo? Muito. Não sei mais rezar, mas tentei. Egle falou depois que pediu até a Tim Maia, que tinha recém falecido, para olhar por todos.

Hélio no primeiro vendaval - Foto © Mara Blumer Para piorar o que já estava ruim, o piloto automático pifou e tive que ficar no leme por umas 8 horas seguidas. Corríamos com o tempo com a grande no 3º rizo. A parte mais crítica foi quando tive que ir à proa, pois o bote se soltou. Passei o leme para Mara, não esperei ela se acostumar com o balanço do barco e não deu outra: um jaibe involuntário. Se minha cabeça estivesse uns dez centímetros para o lado a retranca teria me apagado. Depois sofremos outro jaibe involuntário, e mais outro!

Começou a chover. Ótimo, a chuva vai baixar o mar. Sem luvas, as pontas dos dedos, já enrugadas, começaram a incomodar. Várias vezes fiz xixi sem tirar a roupa impermeável, claro que tendo o cuidado de antes tirar a bota do pé esquerdo.

Sabemos que num vendaval não se deve aterrar, mas João ouviu pelo rádio SSB que o vento diminuiu em São Francisco do Sul e mudamos o rumo para lá. Felizmente Mara conseguiu limpar os contatos e o piloto voltou a funcionar, o vento amainou e até abriu um buraco nas nuvens com uma nesga de sol de fim de tarde. Quando diminuiu o estresse a reação do organismo foi botar pra fora toda a adrenalina acumulada. Não estava enjoado, mas vomitei quase um litro de Coca Diet.

Chegamos na barra do São Francisco à noite, exaustos, num porto desconhecido e com uma carta desatualizada. Quase abortamos a entrada, mas depois da tempestade vem a ambulância. A nossa foi o João, que já tinha entrado e nos orientou pelo VHF. Jogamos a âncora com o sol nascendo e desmaiei no beliche.

O erro básico foi não saber pedir a previsão do tempo. Nos informaram a de Ilhabela quando na área Bravo, para onde estávamos indo, já havia aviso de vento forte e mar grosso. Ficamos embaixo de numa alta pressão (1036 MB) que gerou, talvez, um mini ciclone extratropical.

Queríamos um teste? E que teste! Sofremos, mas não desistimos. Afinal como dizem os velhos marinheiros ingleses “Calm seas never make skillful sailors!”.O MaraCatu em São Francisco do Sul - Foto © Hélio Viana

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6 Comentários leave one →
  1. egle permalink
    segunda-feira, 28 abril, 2008 @ 8:24 pm 8:24 pm

    Amigo Helio,

    Seu relato esta perfeito. Nunca senti tanto medo em minha vida. So tenho uma ressalva: Quem apelou para Tim Maia foi o Ze. Eu apelei para um cardume de golfinhos que passou pela nossa proa . Na hora do aperto vale pedir ajuda para qualquer um.

    Beijo grande

    Egle

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  2. terça-feira, 29 abril, 2008 @ 10:16 am 10:16 am

    Egle,

    Minha querida leitora atenta. A falha foi da Web Slave Mara, a revisora deste blog. Acho que não vou corrigir no texto, assim só fica sabendo da verdade quem vier futucar nos comentários.

    O interessante de nossa experiência é que não pegamos, ainda, algo maior que o primeiro vendaval. Nos ventos mais fortes que enfrentamos, lembro daquilo e penso: ainda está bom, já passei por coisa pior.

    Beiju.

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  3. quarta-feira, 5 agosto, 2009 @ 2:37 pm 2:37 pm

    Eu vim Futucar(!). Eu nunca passei por uma tempestade, mas sei que um veleiro bem preparado aguenta muito mais do que aquilo que o marinheiro inexperiente pensa. Eu tenho um livro que relata uma regata em Inglaterra que correu muito mal….meia duzia de mortos e muitos barcos afundados, mas o autor do relato conta coisas incriveis de resistencia que eu pensava não serem possiveis, a uma certa altura ele diz que :o barco aberto entrava a água que queriia entrar, sem ninguem ao leme e sem mastro o barco aguentava e as ondas eram agora um pouco mais pequenas pois só tinham 8 metros. De referir que a embarcação éra de fibra e tinha (tem) 9 metros, ficou á deriva sem ninguem a bordo e cheio de água e foi resgatada uns dias depois intacta. E esta hem!.

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    • quinta-feira, 6 agosto, 2009 @ 3:22 am 3:22 am

      Conde,
      Futucando? Ora, já estais falando brasileiro…
      A regata a que você se refere é a Fastnet, que larga no próximo domingo, 9 de agosto, em sua 43ª edição.
      Colei abaixo nota da newsletter do jornalista Murillo Novaes. Se quiser receber as notícias do mundo vélico brasuca solicite inscrição por e-mail aqui.

      Em 2009 se lembram os 30 anos da fatídica regata de 1979, quando 19 velejadores (15 participantes e 4 espectadores de um multicasco) perderam suas vidas quando uma megatempestade se abateu sobre a flotilha naquela que foi, seguramente, a maior tragédia da história da vela esportiva.

      Durante a Semana de Cowes será celebrada uma missa na ilha de Wight em memória das vítimas e em agradecimento a maior operação de resgate realizada na Europa no pós guerra, quando apenas 85 barcos, dos 303 que largaram, conseguiram completar a prova. Assim mesmo porque os mais velozes, como o vencedor à época, o Tenacious, do fundador da CNN, Ted Turner, acabaram voltando ao abrigo do canal da mancha antes do pior do mau tempo. Sinistro!

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